A Última Saideira - por Cleomar Brandi
19/07/11 às 17:05h

 

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A Última Saideira - por Cleomar Brandi 

Um dia, uma noite, algum boêmio sempre pede a saideira e os garçons nunca gostam dessa história. Mas, o certo, é que sempre chega a hora da última saideira. Dessa vez, chegou minha hora, meu último gole.

Eu, pessoalmente, não diria que estou indo contrariado. A hora e a vez de Matagra. Afinal de contas, soube beber com sede de aprendiz o melhor que havia na taça que a vida me ofertou. Uma taça lavrada, rescendendo a conhaque.

Nadei nas águas mornas de Arembepe, conheci Raulzito quando ele ainda se juntava aos seus panteras, com Thildo Gama e outros, vi Caetano, Moraes Moreira, Pepeu no encontro de trios, enquanto o poeta apontava com a mão a Baía de Todos os Santos. Arpoei caramuru, tirei polvo da toca, garanti as moquecas da minha adolescência, fui recordista de natação, ungido por Oxalá.

Fui bom de porrada, fiz meu nome nas turmas de rua do Lago dos Aflitso, joguei futebol e, nos babas, ganhei o apelido de "Leonam" onde sou conhecido assim até hoje. Fui batizado nos puteiros da Ladeira da Montanha, conheci Mestre Pastinha e Mestre Bimba, vi meu "Bahêêêa" ganhar para o escrete do Santos e Waldemar Santana encher Hélio Gracie de porrada.

Conheci os mistérios dos becos e ladeiras da velha Salvador, fui amigo de Cid Teixeira, Capinam, Guido Guerra e Luis Orlando, encarei dois anos de internamento no Hospital das Clínicas, tive febres diárias, colecionei escaras coloridas, vibrantes e sangrentas, decepcionei laudos médicos, busquei o tempo que eu queria da minha vida.

Um dia, uma brisa morna me carregou para o colo da bela Aracaju, onde eu soube ser feliz, no tempo que me restava. Aqui, bebi os melhores conhaques da minha vida, amanheci nas libações madrugadoras com o amigo-irmão José Eduardo Sousa, soube ouvir o violão de Pantera, a melodia de Paulo Lobo, o blues de Soyan, as conversas de Mariano e Bel nas andanças do Imbuaça. Aqui, plantei amigos, colhi irmãos, como o grande parceiro Gilson Sousa. Aqui, ouvi a melodia do Cataluzes, comi o melhor pirão de caranguejo do Pastelão, me fartei dos mistérios culinários da cozinha de Camilo.

Nessa terra, amei mulheres que reverencio até hoje. Fiz poemas para algumas, embriaguei-me com outras. Como esquecer do sorriso de Arlinda, que ganhou o mundo e acabou na Sorbonne? Como esquecer do sorriso sacana de Ana Paula? E os finais de tarde no Mosqueiro? E o chiado da tainha na frigideira do Bar de Nem? E a amizade terna da turma do JORNAL DA CIDADE e da Aperipê TV.

Como esquecer da lealdade de meus irmãos a vida inteira? E de Christina Brandi, cunhada que se tornou irmã? E da cumplicidade do irmão Chico Neto, que trilhou a vida inteira os caminhos do bom jornalismo, ético e honesto?

Um dia, o velho barril de carvalho pinga sua última gota de conhaque. E o poeta se despede de tudo, sem tristezas nem vexames. Apenas sabendo que cumpriu seu papel com dignidade, com honestidade e com um brilho de crianças nos olhos.

Quem sabe, eu encontre o amarelo dos girassóis nesse novo caminho?

Cleomar Brandi morreu às 16h de domingo, 17, no Hospital Primavera, onde estava internado desde junho. Nascido no dia 18 de janeiro de 1946, na cidade de Ipiaú, Bahia, era filho de Waldemar Brandi (já falecido) e Cleonice Ribeiro Brandi, com quem morava.

A atuação no jornalismo começou no Instituto de Radiodifusão Educativa da Bahia (Irdeb), quando foi aprovado em um concurso público, em primeiro lugar. Cleomar mudou-se para Aracaju para compor a equipe que colocaria no ar a única emissora de televisão pública do Estado, a TV Aperipê, onde ainda atuava.

Brandi também trabalhou na TV Sergipe, na TV Jornal, na Delmar FM, no Jornal de Sergipe, na TV Caju e, também atualmente, no Jornal da Cidade. Ele foi correspondente da revista Veja durante dois anos e atuou na diretoria de Comunicação do Tribunal de Justiça de Sergipe (TJSE).

Em 2009 ele lançou ‘Os segredos da Loba', uma coletânea de textos escritos durante os 32 anos de jornalismo. Cleomar é único e além de deixar uma crônica de despedida, também deixou a festa paga no 'Bar do Camilo'.

Por assessoria parlamentar

Marcelo Barberino





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